"Itís Friday, Iím in love"
por Heron Hugo Heinz
 
 
 
Boa música, pessoas que te fazem bem à vista. E à alma. É o que procuro.

Estou dançando com a garota mais linda do lugar, deveria estar feliz? Estou feliz, baby. Quem dança seus males espanta.

Cantar é muito elitista. A dança é livre.

Dançando, esquecemos de beber e de fumar.

Et alli.

E se a pessoa que está a sua frente alegra sua vista, thatís perfect.

Não cobro muito da vida, mais. Just nice moments.

Just Bocó.

Yes, darling , you must try .

Iím wishing you the best.

I realy loved Myself. O cara não tinha onde cair vivo, mas me conseguiu um baseado no bar, depois de irmos a duas vilas e neca pau.

E mais um porcaria pra cheirar, que dispensei porque no outro dia estaria indo pro interior às 8 da manhã, vender minhas memórias.

A linda do cabelo vermelho estava lá.

Eu é que não estava, pra variar.

Na volta, muito bêbado, resolvi cortar caminho pelo parque. Prostituição masculina. Não tô nem aí.

Claro que tive que mijar no meio do caminho.

Coisa que só troco por dançar com quem amo muito.

You know what I mean.

Não era o caso. O cara chegou de leve. Quinze anos, no máximo.

- E aí, tás a fim?

- Oi, a fim de quê?

- Tu sabe, qualquer coisa...

- Não, obrigado, amanhã tenho que acordar cedo pra trabalhar.

- Tem um cigarro?

- Claro. E aí, qual a hora do prazer de dançar na noite?

- Ah, isso é brabo, não são muitos os lugares depois de uma certa hora, principalmente de manhã cedo, dia de semana.

- É, eu até sei o que é isso. Bom trabalho pra ti.

- Valeu, obrigado pelo crivo.

Papo cabeça. A garota me diz que quer umas aulas de baixo, o instrumento que eu tocava na banda.

- Baixo é feeling, digo eu.

Pra mim, era fim de papo, será que ela não entendeu?

- Tu é muito radical.

- Pode ser.

Deu pra notar que eu não tava a fim de dançar com ela.

Et alli.

Sacanagem. Até dei umas boas firulas verborrágicas, o que vale é a gente sentir, a bateria na verdade é o que conta, tô muito bêbado, não leva a mal, nunca tive professor, nem tenho a menor condição para dar aulas.

- Foi muito bom ter conversado contigo, vou escrever isso que tu me disse.

- ?!?!?

Tava na hora de ir embora.

Ou eu ou ela, no mínimo um de nós tava muito louco...

Dois dias depois , tô lá, tudo o que eu quero é encontrá-la.

A garota mais linda do lugar. Segunda frase, te antena.

Sem muita esperança.

Mas Baco é pai, não é padrasto!

Eu na minha. Tudo o que não quero é me sentir um chato. Please, me inclui fora dessa.

Em cinco minutos, ela tá dançando comigo.

E fica o resto da noite comigo.

E é muito querida.

E é linda.

E eu tenho vontade de me, de me, de me nem sei o quê, pra deixar de ser tão burro, digo tímido, digo burro de tão tímido. Por que não nasci só burro, em vez de morrer de vergonha de dizer pra mulher que ela tinha a boca mais deliciosa desse mundo?

Antes de tu fumar esse cigarro, posso te dar um beijo?

Pensei, mas não disse.

Anta!

Na saída, coloco-a num táxi.

- Tu não quer uma carona?

- Não, obrigado. Eu moro aqui por perto.

- Bom..., tchau.

Anta, jumento, ainda bem que não tropecei, senão saía pastando ali mesmo.

Sobre amigos, paixão, e inspiração.

Fazem muita falta.

Tenho muito carinho por ele(a). Nunca sei como o tratar. Ou a tratar.

Pô, tu não me convidou prô churrasco na tua casa.

Mas como, eu só te encontro aqui no bar. E não vem com essa, tu sabe que eu gosto muito de ti.

É eu sei. Eu também gosto muito de ti.

Coffeshop. Língua estrangeira. Eu sozinho, sem falar (realmente) com ninguem a uns cinco dias.

Beleza, fecho um no balcão, fumo um pouco, bebo uma cerveja. Terceiro dia seguido que vou lá. O cara no balcão, paquistanês, sorriu e me cumprimentou. Já é meu melhor amigo na cidade, só por isso. Ganho um cartão de cliente, na próxima vez que comprar baseado lá, é de graça. Paraíso terrestre.

Uma pessoa no balcão fica sabendo que sou brasileiro, e por consequência, ao seus olhos, exótico.

Conversamos um pouco. Só bobagens. Minha especialidade.

Legal, estava me fazendo muita falta.

Não sei até hoje se era homem ou mulher.

Importa?

Eu tinha alugado um quarto em uma casa onde moravam um casal e a irmã do cara. As mulheres eram gente finíssima. O cara, uma mala indescritível. No segundo dia, tudo o que eu queria era matá-lo, ou, no mínimo, cortar a língua dele, pra poder conversar só com elas. Mas meu nome é Just Bocó, o que fiz foi ir embora dois dias depois, deixando pago o aluguel de um mês.

Não importa onde estamos nesse mundo, a imbecilidade masculina é universal.

E as mulheres são maravilhosas, e incompreensíveis para mim, em qualquer canto desse planeta.

Por quê elas não faziam o mesmo?

Um dia talvez façam.

Tomara.

Que palavra estranha, hein?

Itís Friday, Iím in love, e ela não veio no bar.

E danço The Cure sozinho.