O Reino das palavras entre aspas (*)
por Jorge Furtado
10/06/99 10:38
 
 
Gracinha, o Foguinho: espinafra todo mundo lá do seu balneário e depois diz que não sabia que "exercer a crítica fosse criar melindres ou deixar as pessoas envaretadas". E ainda tem a cara de pau de dizer que "ficar respondendo usando frases que eu escrevi é truque manjado", logo ele que tem o péssimo hábito de colocar ENTRE ASPAS frases que eu não escrevi. Foguinho diz, por exemplo que eu afirmei que "a poesia não trata da realidade", assim mesmo, entre aspas. Nunca escreveria uma besteira destas. O fato dele achar que isso e o que eu disse são a mesma coisa revela apenas o seu descuido na escolha das palavras. E explica em parte ele não ter entendido quando eu escrevi que "a matéria prima da poesia não é a realidade, é a palavra". Talvez ele entenda melhor lendo a "Procura da Poesia", do Drummond.

Não entendi por que o Foguinho conclui que criticar a Daniela Mercury por ser porta-voz do ACM revela uma visão de quem "só pensa a política em termos de marketing". Penso a política também em termos de marketing. Algum problema? Mas não costumo confundir a posição política dos criadores com sua obra. Acho até que a Daniela canta músicas ruins muito bem mas, por favor, compará-la com Carmem Miranda, mesmo que indiretamente, é um pouco demais, talvez fruto de uma overdose de água de coco. Não quero "instaurar linha divisória" nenhuma, acho que o Caetano tem todo o direito de apoiar quem ele bem entender, ACM, FHC, Netinho ou Daniela Mercury. Continuo lendo o que ele escreve e ouvindo suas músicas com o interesse de sempre. Mas não venha o Foguinho com esta conversa de que o Caetano disse para ele que "as perguntas que eu me faço, eu as faço publicamente". Como diz o Nei Lisboa, "eles querem parecer sinceros demais". Se as dúvidas do Caetano fossem só as que ele torna públicas ele seria não apenas um chato mas também um bobo. E ele não é. Concordo inteiramente com o slogan do Pasquim (deve ser do Millôr): "Se você não está em dúvida é porque foi mal informado". Tudo que eu escrevo aqui são dúvidas, uma pequena parte das que tenho e muito prezo. Tomo por elogio a idéia de que pareçam certezas.

O Foguinho não entendeu (ou finge que) o que eu disse. Seu discurso anti-stalinista é de uma obviedade ululante, por alguns momentos pensei em estar de volta ao início dos anos oitenta, tomando um Minuano Limão e ouvindo o Supertramp. Não consigo achar graça na idéia dar ao ACM mais poder do que ele já tem. E repilo (sempre quis usar esta palavra!) a insinuação cretina de que atacá-lo é um pretexto para "mascarar o racismo sulista, a idéia de que esses baianos são todos iguais e é preciso acabar com eles antes que seja tarde". Foguinho está julgando quem não conhece de acordo com seus próprios padrões.

Também não escrevi a frase que ele mais uma vez colocou entre aspas "não podemos facilitar". O que eu escrevi foi: "Não sei, é melhor não facilitar". Foguinho, que parece prezar tanto a exposição das dúvidas, suprime a dúvida que eu exponho com o uso indiscriminado que faz das aspas. Suprime também o tom coloquial e auto-depreciativo da frase, transformando-a, ao levá-la do singular ("não sei") para o plural ("não podemos"), numa ridícula convocação cívica. Se o Foguinho trata as palavras com tal desleixo, por favor, tome mais cuidado ao me citar entre aspas.

Para não deixar passar: a revista Veja, cada vez mais canalha com medo da concorrência de Época - agora sob a administração Augusto Nunes - achincalhou o Caetano pelo uso de uma máscara numa favela durante sessão promocional de Orfeu. Mario Sabino (o mesmo que fez aquelas páginas amarelas com o Olívio) chamou o Caetano de "traficante fashion". Pena que Veja não tenha informado seus leitores que dezenas de máscaras foram distribuídas na sessão como material promocional e que muita gente estava usando. Ao suprimir esta informação e estampar só a foto do Caetano com a tal máscara, Veja desinforma o leitor e explicita seu caráter fascista. Mantendo todas as devidas proporções, é o mesmo truque usado aqui pelo Foguinho ao colocar entre aspas frases que eu não escrevi.

Nunca pensei em dividir o mundo em pré ou pós Artaud, menos importante por sua obra do que por santo padroeiro da geração mimeógrafo. E não entendi como Picasso possa ser arrolado como testemunha do engavetamento provocado pela barbeiragem do Foguinho. Foi Picasso quem afirmou mais veementemente que "arte é tudo o que a natureza não é". Picasso, mais do que qualquer um, libertou o artista da canga da realidade. E acho que é aí que se esconde o maior descompasso entre a maneira com que eu e o Foguinho (ou o Gerbase, na sua proposta Não-Odara olha o Caetano aí outra vez) vemos o Não. Fui eu que, como editor do Não 62, expurguei poemas e ficções. Justifiquei minha opção no editorial. Acho que este é um ótimo espaço para trocarmos idéias sobre o universo real, sobre o que acontece com cada um de nós e com o mundo, e que continuará acontecendo sendo descrito ou não. Enfim, um espaço para fazer jornalismo ou, no limite, crônica. Nada contra os (bons) poetas, contistas e romancistas, mas a internet está engarrafada de revistas literárias e a minha mesa de cabeceira está cheia de livros que ainda não li. Foguinho se refere a mim como "um artista" que eu não sou e não pretendo ser, muito menos aqui.

Sem dúvida o Não precisa ser criticado de dentro para a fora. E aí? Não é tabu nenhum, a não ser que o Foguinho ache que só ele pode criticar, ou que suas críticas devam ficar sem resposta. Concordo com ele que o Não pouca função tem além de ser um espaço para discussões "acaloradas e carinhosas, tudo ao mesmo tempo". A idéia, que eu saiba, continua sendo esta.

Para terminar: a enrolação com que o Foguinho respondeu ao meu desafio de editar o Não (não tenho a pretensão, não entendo de computador, não tenho tempo, etc.) pode ser sintetizada numa singela expressão: pediu penico.
 
 
Jorge Furtado
jfurtado@portoweb.com.br
 
 


(*) Nota do editor: este texto é uma resposta a Procura-se um editor, matéria ao vivo de Paulo César Teixeira (Foguinho).