A SURUBA DOS TUBARÕES

por Kátia Suman


Em 1998 o mercado fonográfico mundial movimentou US$ 38,7 bilhões de
dólares, uma quantia bastante razoável. Esse consumo se refere a cds
(64,8%), fitas cassete (34.7%) e discos de vinil (0,5%) e os números fazem
parte do relatório anual da IFPI - Federação Internacional da Indústria
Fonográfica Esse monte de dinheiro é quase que todo dividido entre apenas
5 grandes tubarões: Universal, Sony, Warner, EMI e BMG. O resto é peixinho.
Pois são esses tubarões que determinam o que se vai ouvir nas rádios de
Londres, New York, Tokio, Paris, São Paulo, Porto Alegre e Chimbica do
Oeste. Sim porque mesmo que eles não interfiram diretamente em Chimbica do
Oeste, Chimbica também tem lá suas aspirações à modernidade. E as vezes
isso pode significar rodar o mesmo tipo de som que roda em Londres ou mesmo
em Porto Alegre.

O esquema funciona assim: os caras decidem quem é a bola da vez, em quais
artistas eles vão investir. A título de exemplo usaremos o caso da banda
Xubiduba Tudo ok, disco gravado, lançamento cercado de expectativa plantada
pela mídia comprada. O melhor diretor, o melhor roteirista, o melhor clip,
a melhor verba, a melhor droga, o melhor equipamento. O clip é lançado com
todo o estardalhaço possível nas MTVs americana e européia. As principais
revistas especializadas americanas e européias dão capa pra Xubiduba, que
também aparece em todos os programas bacanas da TV dando entrevistas
interessantésimas. Os suplementos culturais de todos os outros jornais
americanos, europeus, japoneses e latino-americanos repetem/citam/comentam
a matéria.

Está feito o estrago.

O disco sobe rapidamente nas paradas da Billboard, que é a bíblia deste
mercado. Bíblia obviamente manipulada pela indústria. E a liturgia que se
exploda.

Daí pra frente ninguém segura: aqui no Brasil o clip sobe semanalmente no
paradão MTV, pretensamente escolhido pela audiência. Os jornalistas-B ou
culturetes conseguem "exclusivas por telefone". A outra opção é a gravadora
bancar a viagem de um repórter descolado pra cobrir o lançamento e então o
disco é dissecado pela crítica. Quando a gente se dá conta, Xubiduba já é
um sucesso mundial!

Enquanto isso as rádios cumprem o seu papel - fundamental nessa história
toda - de rodar a tal música 3, 4, 9 ou 10 vezes por dia, das 7 da manhã
às 7 da noite, durante 3, 4, 5 meses, dependendo do desempenho do
"produto". E eu não estou exagerando.

No dia 13 de maio, por exemplo, foi lançada uma música nova do Ultraje a
Rigor (Nada a Declarar) que foi tocada 46 vezes em São Paulo. Só nesse dia.
Ora, levando-se em conta que não há mais do que 5 rádios "rock" em São
Paulo, faça as contas e veja quantas vezes cada rádio paulista tocou a
música do Ultraje.

Nada contra a banda, diga-se. O que me irrita é essa determinação de enfiar
uma música goela abaixo do incauto radiouvinte. E a facilidade com que essa
determinação da indústria é atendida pelas rádios, numa espécie de suruba
de interesses em que o que conta mesmo é o velho "o que que eu ganho com
isso?" .

Aqui cabe uma rápida sessão nostalgia: há um tempo atrás havia aquilo que
se chamava "jabá", um misto de contravenção menor e acordo de cavalheiros,
que se estabelecia entre o programador de rádio e a gravadora. Um se
comprometia a rodar o "produto", o outro por sua vez, se comprometia a
recompensar essa execução em cash ou talvez em benfeitorias, presentes,
viagens, essas coisas. Um sonho de valsa, um corte de cetim. Uma relação
até meio romântica, que remete ao mito, recorrente no folclore nacional, do
malandro bom, aquele de terno de linho, sapato branco e tal. Hoje essa
relação se profissionalizou e se estabelece em acordos formais, não mais à
meia voz, na camufla - o jabá agora é feito com ata, contrato e secretária.
Tantas execuções, valor X agregado ao faturamento da rádio, mais tantos
aparelhos de som, ou equipamentos pra rádio, ou scooters, ou viagens, ou
discos invendáveis pra promoção ou sei lá o que pra sortear para os
ouvintes. Hoje 70% da verba de lançamento de um disco vai pras rádios.
Existe até um serviço, terceirizado pelas gravadoras aqui no Brasil,
chamado "rádio-link", que monitora as rádios que interessam às gravadoras
- e as 10 maiores audiências sempre interessam.
Diariamente os executivos recebem relatórios com a listagem de todas -
TODAS - as músicas que rodaram em todas - TODAS - as rádios. Das 7 da manhã
às 7 da noite. Rádio por rádio, música por música. Analisando um desses
relatórios de emissoras do Rio de Janeiro, São Paulo e daqui, senti vontade
de vomitar: é tudo jabá. Aquela famosa "rádio rock" de São Paulo, a 89, por
exemplo, ficaria melhor com o slogan "rádio-jabá-rock".
Eu poderia dizer que no mundo inteiro a Ipanema FM é a única rádio, que
vive do seu faturamento, que tem coragem de dizer NÃO pra esse esquema, mas
eu vou baixar a minha bola e me restringir a Porto Alegre, onde eu posso
provar isso.

A Ipanema diz NÃO pra esse esquema, porque é uma pobreza executar só meia
dúzia de artistas que interessam às gravadoras, NÃO, porque mesmo que o
artista seja legal é uma pobreza tocar só UMA música de um disco com 14 ou
15, NÃO, porque limitar a informação estética que nos chega pela música é
negar a sua grande riqueza que é a diversidade, NÃO porque esse esquema
inviabiliza a sobrevivência dos independentes, NÃO porque meia dúzia de
executivos não podem brincar de deus e determinar o padrão estético musical
do mundo, NÃO porque as rádio NÃO precisam das gravadoras, as gravadoras é
que precisam das rádios.

NÃO porque NÃO e acabou.

Ufa, dizer não é muito cansativo - mas faz a gente se sentir vivo.

Experimente.

XXX

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