OLAVO DE CARVALHO OU O NENÉN PRANCHA DO ANTICOMUNISMO

Marcelo Xavier

highway61@bol.com.br

Achei que o filósofo Olavo de Carvalho fosse meter o pau naquele professor e articulista da Zero Hora que, num artigo publicado na semana passada, apontou sérias generalizações na epistemologia do socialismo a que ele ataca. Por sua vez, o padre Quevedo do Anarco-Liberalismo resolveu defender o jornalista Gilberto Simões Pires em seu último artigo. Antes de abordar este assunto, queria dizer que, como jornalista, Carvalho é um jornalista medíocre pra a idade dele.

Vejam: no artigo do último dia 18 de dezembro, "Consciência reprimida", ele começa com um parágrafo enorme; em seguida, repete "ques": "decidiu que", "dizer que". Mais, ele não menciona o nome da secretária ou do governador. Ou seja, se eu ler o artigo no Acre, vou ter que perguntar qual é o nome deles para alguém, ou pesquisar na Barsa. Usa arcaísmos vazios (redibtório). Sem contar com as vagas aliterações cheias de adjetivos ("Na sua ascensão irresistível", "a carapaça das falsas virtudes", "esquecido de si mesmo"). Sem falar que, em um mesmo parágrafo, ele usou "Rio Grande do Sul" três vezes, sem usar cognato (gaúcho, rio-grandense, sulino, sulista, etc.).

(Um parêntese: agora, engraçado é como, para o Olavo, os comunistas são farsescos e os seus exegetas, seres olímpicos. Assim, o Gilberto Simões é "brilhante comentarista"; o Arthur Hermann é "consagrado". Mcarthy é "espalhafatoso", e a senhora Lúcia Camini é "impudica". Será que ele ao menos sabe o nome da secretária?)

O senhor Olavo de Carvalho certamente não conhece a realidade de nosso estado. Há duas semanas, o filósofo foi estrela do programa do jornalista Gilberto Simões Pires. Pego de surpresa entre um vôo e outro, explicou a natureza dos estados policialescos e coercitivos, típicos, segundo ele, de alguns regimes socialistas. Antes de concluir, citou o caso Simões Pires como prova de que aquela coerção a que ele se referiu "já começou" aqui em nossas plagas. Juntou-se a fome com a vontade de comer: o Gilberto querendo alguém para o transformar num injustiçado herói trágico, e o Olavo querendo uma prova real para a sua teoria.

Ou seja, a impressão que tive é que o Neném Prancha do comunismo transformou o Gilberto numa vítima das circunstâncias, elevando-o a, quem sabem, um panteão digno de um herói de ditirambo. Mas dizia que o Olavo não conhece a nossa realidade; pois bem. Eis que ele defende Simões Pires também ao se reportar a um fato curioso: os ventos dizem que um determinada casta de homens de imprensa está sendo aviltada pelo "salazarismo" da nossa esquerda. Sobre isso, temos vários deles que testificam isto.

Mas fiquemos com o caso do Gilberto. O Olavo defende o cara por causa de uma certa perseguição do governo contra ele. Mas o que o Olavo não sabe é que o Gilberto tinha um programa na Band AM, até alguns meses. O programa era assim: ele reesquentava a pauta de jornalismo (era esse o nome), e, depois, se punha a fazer editorialismo pelo microfone. Ficava de cinco a dez minutos falando como se fosse uma Voz do Pastor secular. Mais adiante, metia o pau no governo, seja qual fosse — principalmente no PT, a sua especialidade. Dependendo do assunto em voga, ele apresentava apenas a sua versão, e não permitia, de forma nenhuma forma, que algum porta-voz do governo (leia-se PT) se manifestasse ou o contestasse, tivesse o governo razão ou não.

Também agia da mesma forma bestial com ouvintes que se manifestavam contra ele, avacalhando-os ao vivo. Uma vez, em sua inflexão, soltou um palavrão para uma santa senhora que o criticou por fax: "Minha senhora, por que a senhora não vai se...". Na época da ida da Ford, o Gilberto colocou o deputado Mário Bernd (PMDB) para falar. A entrevista durou meia hora e parecia um convescote de lavadeiras. Depois de tantos desmandos, extirpam, de forma obscura e obtusa, o valente jornalista. Até hoje as pessoas se questionam se fez-se justiça, ao tirar do ar um programa tão torpe, ou injustiça, porque, de certa forma, a liberdade de imprensa foi assoberbada.

Sobre consciência reprimida, creio que mais reprimida é a falta de tato que eles, o Gilberto e o Olavo, em serem informativos e até mesmo, agradáveis. Se existe algum halo de ódio neste estado, penso que a recíproca é verdadeira ao infinito, e assim será, até a consumação dos séculos. E mais: Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro, apesar de ser um nostálgico da burrice, gosta mesmo é de admirar gente que pense por eles. Acho que o dramaturgo explica o Olavo mais do que ninguém.