A PAZ NÃO PODE PRESCINDIR
DE UMA NOVA ORDEM SOCIAL
Rodrigo Gurgel
Estes tempos de crise deveriam servir para realizarmos um movimento que nos fizesse ir além da matança implacável de inocentes, do espetáculo ilusionista das tevês, da cobertura parcial dos jornais, do comportamento grotesco dos militares e da - sempre a mesma - arrogância dos políticos. Deveria ser possível uma reflexão que, de alguma forma, melhorasse a nossa espécie. Um ato - pessoal ou coletivo - que repudiasse, denunciasse e obstruísse a violência deveria se materializar.
Mas, que voz poderia ser ouvida, se a voz dos milhares que têm saído às ruas, em todo o mundo, parece deixar ainda mais surdos os governantes? Um novo Gandhi? Um renascido Martin Luther King? De quantos mártires nossa espécie necessita para perceber que não é mais possível os gestos cruciais, decisivos e categóricos da história - aqueles que provocam mudanças efetivas para as grandes coletividades do planeta - serem sempre animados por uma pulsão de morte?
A história não pode continuar a ser impulsionada por um sentimento de ódio camuflado pelo cálculo frio dos estrategistas políticos e econômicos. Ou pela fatalidade. Contudo, a maneira como nos relacionamos socialmente, nossas escolhas diárias e a forma por meio da qual utilizamos o que a natureza nos oferece, revelam, principalmente, nossa capacidade destrutiva.
Desde seu nascimento, nada mais parece restar ao homem, a não ser interagir, sem qualquer rumo, violento, desgovernado, com as forças do instinto e do acaso. Uma realidade - afirmo sem medo de cometer injustiças - impulsionada e reforçada pela família, pelo Estado e, muitas vezes, pelas religiões.
Somos condicionados para a violência. Não somos educados para a paz.
O penhor do capitalismo
Recordo-me de, certa vez, quando criança, ter sofrido, na rua, a agressão de um menino que era meu vizinho. Voltei para casa, chorando, e encontrei meu pai na sala. Quando me perguntou se eu havia agredido igualmente o meu agressor, diante de minha negativa ele se enfureceu. E, sob a ameaça de espancar-me, obrigou-me a sair, procurar o menino e também agredi-lo. Apavorado com a possibilidade de outra surra, agora em casa, o fiz. E quando retornei, machucado, chorando, e relatei a meu pai os detalhes da briga, ele enalteceu minha coragem, minha força, meu valor, concedendo ao meu gesto uma aura de inquestionável respeitabilidade.
Quantos de nós não fizemos o mesmo com nossos filhos? E quantas vezes nossos filhos reproduzirão o mesmo comportamento?
Mas este é, infelizmente, um exemplo menor no universo de violências que, cometidas diariamente, permanecem encapsuladas no núcleo familiar, protegidas e, muitas vezes, referendadas pelo tabu que ainda conserva a família como uma instituição intocável. Sob o manto da proteção familiar - nós bem o sabemos, desde o advento da Psicanálise - geram-se neuroses e complexos dos quais a criança corre o risco de jamais se libertar.
Diariamente, crianças sofrem violências mascaradas sob a forma de disciplina, educação, transmissão de valores ou gestos de descontrole, aceitos, na maioria das vezes, como desculpáveis - todos, no entanto, passíveis de serem criminalizados. Às vezes, até mesmo atos de violência sexual, circundados de um silêncio aterrador, são cometidos.
Milhares de crianças são massacradas, cotidianamente, pelas pulsões sádicas de seus pais, até se tornarem igualmente violentas, dando prosseguimento a uma aspiral de causas e efeitos na qual o homem parece estar condenado a repetir as mesmas loucuras, os mesmos abusos, a mesma violência que seus antepassados cometeram e que seus contemporâneos insistem em perpetuar.
Mas não podemos esquecer que a educação para a violência começa muito antes do núcleo familiar ou da convivência com os colegas na rua e na escola. As reações familiares - e todas as outras que compõem o nosso dia-a-dia -, responsáveis por reforçar determinados padrões de comportamento, são apenas tênues reflexos de uma realidade muito mais opressiva. Na verdade, a família - um dos penhores do mundo capitalista -, não é apenas refém dos preconceitos sociais que a conservam como uma instituição inatacável, mas é refém, principalmente, do Estado, dos mercados e das religiões.
Estado, mídia e mercado
Quando o Estado defende e sustenta uma ordem econômica na qual a livre concorrência e as regras de mercado - e, portanto, a permanente rivalidade - disciplinam as relações sociais, os cidadãos transformam-se em gladiadores lutando em uma arena. E quando a mesma ordem econômica norteia toda a estratégia governamental, prevalecendo sobre qualquer outra decisão política, a sociedade transforma-se em um deslumbrante laboratório para novas e arrojadas experiências de marketing, onde as empresas disputam os consumidores como se eles fossem o butim de uma guerra; e, ao fim, depois de espezinhar os rivais menores, acabam por dividir a sociedade em bolsões que satisfaçam a fome de lucro dos principais tubarões.
É a mesma violência da selva - uma comparação que já se tornou um lugar-comum -, mas emoldurada pela paisagem fria, artificial e neurastênica dos centros urbanos.
Quando o lucro - e tão somente ele - é o elemento regulador das relações sociais, pouco resta aos cidadãos. Sobre eles recai a força acachapadora da propaganda, cujos limites éticos são meros eufemismos. Sobre eles pesa, a cada instante, a todo o momento, onde quer que estejam, a mensagem agressiva que os condiciona a consumir, a gastar, a querer, a realizar qualquer esforço, a superar qualquer dificuldade para terem o bem que não é apenas um objeto de prazer, mas a concretização de um falso ideal de liberdade e, pior, de superioridade.
De mãos dadas, mercado, Estado, publicitários e mídia condenam à ilusão parcelas imensas da sociedade e, conseqüentemente, à eterna frustração.
Como reagirá a criança insistentemente bombardeada pelo anúncio de bens que ela jamais poderá ter? O que fará a mesma criança, quando jovem e, porventura, trabalhando, ao ver que há uma discrepância infinita entre o seu esforço e o seu salário, e entre o seu salário e os sonhos que lhe são impingidos pelo mercado? E o que o mesmo jovem fará - e milhares de outros que jamais conseguirão estudo ou emprego - quando lhes oferecerem a possibilidade de conseguirem, por meio da força e do crime, o que jamais conquistarão sendo honestos? Grande parte das respostas está nos altíssimos índices de violência que o mundo conhece hoje.
Nem sempre - para desconsolo de parcela da elite - a família, a escola e a religião dão conta de represar as reações do sistema límbico humano, permanentemente compelido ao ato de consumir, adquirir, possuir.
E quando o Estado nega à mesma criança, ao mesmo jovem, à maior parte da sociedade, as condições básicas para uma vida minimamente digna - e aceita, de maneira passiva, uma realidade na qual a divisão da riqueza privilegia uma minoria -, então temos mais que preocupantes índices de violência: temos um criadouro de marginais.
E qual a resposta do Estado e de parcela da elite à violência que eles mesmos fertilizam? Mais presídios, penas mais severas, policiais em maior número e melhor armados, novas formas de repressão e, tantas vezes!, a violação de preceitos constitucionais básicos. Ou seja, mais violência.
Ao se permitir ser substituído pelo mercado, ao se abster de suas funções reguladoras, ao se furtar ao papel de mediador das forças que disputam poder e espaço na sociedade, o Estado demonstra uma evidente fragilidade política. Dá as costas, então, à fome, à doença, ao desemprego, ao analfabetismo. E quando os desamparados se erguem da lama na qual são abandonados e rangem os dentes com justificável revolta, o estado se limita a coagir, reprimindo-os com a força.
Seria mais fácil instituir nas escolas o ensino formal da violência. Agindo assim, o Estado tornaria evidente uma prática que ele já dissemina de maneira dissimulada...
No plano das relações internacionais, o cinismo é o mesmo. Para ficarmos em um único exemplo, o terrorismo islâmico nada mais é do que o resultado de um século de imperialismo esmagando o Oriente Médio. Invasões, manipulação política das nações árabes, intervenções desumanas, ingerências permanentes, instituição e financiamento de governos fantoches, estabelecimento à força de fronteiras espúrias e o apoio irrestrito à política belicista e expansionista de Israel resultaram no 11 de setembro. Erros que insistem em se perpetuar...
Destituída de qualquer justificativa capaz de um vislumbre ético, a guerra contra o Iraque é um monumento à inconseqüência e à barbárie. Gerará uma onda incontrolável de novos gestos de violência. E se alastrará para muito além do que conseguem prever os puritanos fundamentalistas instalados na Casa Branca.
A recusa dos diferentes
Sob o discurso melífluo das religiões, a história tem assistido, em diferentes momentos, a defesa intransigente da intolerância entre as pessoas e os povos.
Movimentos fundamentalistas exercem uma militância danosa sobre as consciências de seus fiéis em todo o mundo. O ódio insinua-se nas orações, nas prédicas, na alteração astuciosa da mensagem original dos diversos profetas. Para cristãos, muçulmanos, judeus e muitas outras crenças, a diversidade, em seus múltiplos aspectos, ainda é considerada uma afronta pelos cérebros monomaníacos de centenas de líderes religiosos.
Comunidades inteiras são privadas da liberdade de pensamento, impedidas de usufruir dos seus próprios corpos e treinadas a exercerem - em nome de um reles moralismo ou de uma suposta ordem divina - uma vigilância policial sobre si mesmas e sobre os outros.
E quando a religião se une ao Estado, as liberdades civis desintegram-se sob verdades tão contestáveis quanto engendradas por uma corja de manipuladores.
Fabricando neuroses, instilando a culpa, excluindo os "diferentes", as religiões também semeiam, muitas vezes, o rancor e o desprezo.
Educar para o pacifismo é lutar por uma ordem não-excludente
Certamente, os múltiplos aspectos que geram e alimentam a violência não se resumem aos aqui listados. E a violência - ou a sedução à violência - não é, muitas vezes, clara, visível ou facilmente identificável. Ela adquire formas sutis, disseminadas pela mídia e pela indústria cultural. A cada momento se desfralda - neste canal de tevê, em um novo filme ou na letra de certa música - um convite ao preconceito, à coação, ao egoísmo.
O homem cada vez menos se reconhece em seu semelhante. E o Outro se torna, a cada dia, ainda mais estranho, ainda mais suspeito, ainda mais apartado.
A alteridade nos escandaliza. E nos esquecemos de buscar, naquele que é diferente de nós, não o que nos separa, mas o que nos aproxima: a nossa humanidade. Sim, apesar das influências que nos moldam, devemos buscar no Outro a sua condição mais evidente: a de que ele é um animal humano como nós.
Contudo, parte da resposta a todas as questões aqui levantadas começa a se fazer ouvir. As multidões que têm saído às ruas contra a guerra do Iraque são um sinal claro do resultado alcançado por centenas de organizações independentes que trabalham em favor da paz e de uma educação para a paz; e por dezenas de outras organizações que defendem, de maneira sistemática, a reivindicação e a contestação políticas não-violentas.
Mas a busca da compreensão entre os homens não pode prescindir da justiça social, da igualdade de oportunidades, da divisão da riqueza. Nada que se pretenda diferente do que temos hoje poderá ser construído sem esses elementos. A educação para a paz não pode, portanto, estar desligada do ativismo pacifista, sob pena de se tornar a educação para a apatia, para a acídia, para o servilismo. E os movimentos pacifistas, da não-violência e da desobediência civil não podem prescindir da educação para a paz, sob pena de se tornarem meros agentes sazonais, extemporâneos ou, até mesmo, oportunistas.
A internet veio romper os limites das distâncias para todos esses grupos. Hoje, trocar informações e experiências, tomar decisões conjuntas, implementar ações em escala continental ou mundial tornaram-se práticas cuja facilidade operacional é um convite à superação de quaisquer possíveis diferenças.
Se a mundialização dos mercados globalizou o desemprego, o subemprego e o empobrecimento generalizado dos povos, nossa resposta deve ser a globalização do movimento que busca a paz, sem esquecer que ela pressupõe, para ser efetiva e duradoura, a construção de uma nova ordem social, capaz de se contrapor à ordem excludente que hoje impera. Esta será nossa melhor resposta à mundialização do capital e à violência que lhe é inerente.
Rodrigo Gurgel é editor, e presta consultoria editorial à Escola Sindical São Paulo - CUT. Colunista do La Insignia e da Novae, entre outros. Membro do núcleo de redação da Novae. Seus artigos e ensaios estão reunidos em http://www.rodrigo.gurgel.nom.br/. Este artigo foi publicado em La Insignia, 09/04/2003, e está disponível em http://www.lainsignia.org/2003/abril/cul_017.htm.