EDITORIAL 56
por Carlos Gerbase
 
 
A pergunta que todos nós, leitautores, juvenilmententusiasmados, fazemos agora é:
Será o "NÃO" na Internet, além de um sucesso editorial, uma coisa realmente original?
 
 
"Há quem diga que não. Concluir-se pura e negativamente com base na ausência positiva de antipatias políticas e requisições monetárias que suas páginas não poderiam jamais ter sido o produto da pena de um homem ou mulher daquele período ou daquelas partes não é mais que apenas outra conclusão desnecessária e apressada, equivalente a se inferir a partir da não-presença de aspas (indicativas, isto é, de citações) em página alguma que seu autor fora sempre constitucionalmente incapaz de apropriar-se indevidamente das palavras proferidas dos outros."
(trecho de "Finnegans Wake", de James Joyce, em tradução de Arthur Nestrowski - Folha de S.Paulo, 16/6/98)
 
 
Traduzindo a tradução: acho que não, mas isso não é o mais importante. O importante é que o NÃO atinge seu número 56 com a presença do Álvaro Magalhães, do Nelson, do Foguinho, do Pataco, do Heron, do Giba, todos participantes do núcleo original, mas também abriga gente (e cada vez mais gente) que não tem a menor idéia de quem são as pessoas que acabo de citar. Se a história está se repetindo como farsa - ou, pior, como uma apropriação indevida das palavras proferidas por outros -, mesmo assim acho que vale a pena. Vale sim. Ou não?

E aproveitando este nobre espaço editorial, agradeço, comovido até às lágrimas, à equipe que tem feito comigo as "GAROTAS QUE DIZEM NÃO", esta empreitada de alto valor cívico e educativo, destinada a mostrar ao mundo um pouco das muitas riquezas naturais de Porto Alegre. Participaram: Daniela Dall'Agnol, que fez produção de moda de todas as edições; Peter Krause, que fez maquiagem a partir do número 54; Cynthia Caprara, no casting; Adriana Amaral, que foi entrando aos poucos e agora assume como assistente de produção (e promete fazer os GAROTOS QUE DIZEM NÃO); Débora Peters, que também ajudou nos números 53 e 54; e Rafael Chaves, assistente de fotografia neste número 56, além de criador de vários gráficos novos para o NÃO. E, é claro, as próprias garotas - Ana, Joice, Barbara e Rochele. Continuaremos em nossa cruzada, enquanto houver fronteiras a cruzar e terras a conquistar. E um dia todos reconhecerão nossos esforços, e o mundo será um lugar mais agradável e mais acolhedor.

Falando nisso, este NÃO é um marco de participação feminina: 7 (eu disse sete!) mulheres escreveram para este número. Provavelmente essa avalanche de rachadas ainda é reflexo do número 55, editado pela Luli, que conquistou corações, mentes e pentelhos macios. Tá na hora dos garotos reagirem! Quem elas pensam que são? Vão invadir nosso campinho? Daqui a pouco tão cagando regra e inventando frescura. Espero que o Álvaro, o próximo editor, recoloque as coisas em seu devido lugar.

Outra coisa preocupante: viceja por aí um revolucionário movimento de antigos leitores do NÃO que pregam a imediata destecnologização (joycianismo de última, reconheço) do NÃO. Ou seja: a Neca e o Ricardo (Cordeiro, Quindim, ou King Jim, como queiram) NÃO têm Internet, NÃO estão interessados em ter e mesmo assim querem ler o NÃO, como costumavam fazer quando este órgão estava disponível em papel pautado, e não transmitido pelas linhas tortas e privatizadas da CRT. O que podemos fazer por estes eremitas, por estes bravos defensores das incomparáveis virtudes da caneta Bic? Respostas para a nossa seção de cartas.

Foi bom voltar a editar um NÃO. Mas acho que (e esta crítica vale para todos os números na Internet, inclusive este aqui) ao aceitar tantos contos e poesias os editores correm o risco de transformar o NÃO numa revista literária, primeiro passo para a aculturação e para o bom-mocismo. O NÃO pode (e deve) conter literatura, mas tem que predominar o jornalismo e seus assemelhados (textos filosóficos, ensaios comportamentais, bate-bocas, maledicências, entrevistas, opiniões e bobagens em geral). Por isso, num tremendo esforço editorial, decidi voltar às velhas entrevistas, que sempre deram muito trabalho, mas costumavam ser um ponto forte do NÃO. E o Peninha, como todos sabem, muito antes de ser um exibido textual é um exibido verbal. Esprememos ele todo, de modo a facilitar a peristáltica, e, como resultado, temos uma entrevista histórica e muito (eu disse MUITO) divertida.

Quanto às polêmicas Jorge x Otto / Magros x Magríssimos, que continuam quentes em nossa seção de Cartas e nas matérias enviadas pelo Otto e pelo Zanella (seção Dialética), acho que estamos chegando a um interessante resultado: depois de um momento de porrada pra tudo que é lado, instala-se cada vez mais a discussão estética e política. Na minha opinião, o Otto resume muito bem o que aconteceu numa das últimas frases do seu artigo: "Eu não soube articular a minha defesa no episódio da denúncia." Acho que é isso mesmo: um mal-entendido idiota (gerado inocentemente pelo próprio Otto) que poderia ter acabado muito antes se a defesa fosse melhor articulada. E ponto final (pelo menos pra mim, que não mando em nada, mas quero ver meus amigos queridos de mãos dadas conversando no pôr-do-sol, ai que lindo...).

Mas não pensem que quero paz! "Não volto mais, não quero paz!", escrevi um dia, e continuo acreditando nisso (e cantando isso), apesar do verme (a intenção é carinhosa) do Zanella me chamar de "ex-punk"! Ex-punk? Porra, isso é o maior insulto que já recebi na vida. Esperem o próximo NÃO e verão minha fúria espalhar-se por estas páginas como uma tribo de moicanos ensandecidos. E é isso: que a gente fale mal dos filmes uns dos outros, dos textos uns dos outros, das idéias uns dos outros, dos partidos uns dos outros, mas não das mães uns dos outros (um dia, elas entram no NÃO e morrem do coração). Aliás, interessante notar que tanto o Otto como o Zanella insinuam não acreditar em partidos políticos. Então acreditam em quê? Na ditadura do proletariado? Na ditadura da RBS? Ou querem a volta de D. Pedro II? São niilistas? Ou anarquistas de verdade? Respostas para o próximo NÃO (ou, se for urgente, para a seção de Cartas).

Fora isso, continuo concordando com James Joyce:

"Antes da queda Adão trepava, mas não gozava". (do velho e bom "Ulisses", tradução de Antônio Houaiss, mas acho que essa até eu traduzia)

Carlos Gerbase, 15/7/98