CASULO PRETO

 

Ariela Boaventura

 

 

"Ainda não morrera, só estava em estado de rápida decomposição. Quem não estava?

Estamos todos na mesma canoa furada, tentando nos alegrar."

Charles Bukowski

 

 

Agora estou com sono. Fechando meus os olhos, lembro do teu olhar. Aquele abismo negro no qual caí, escorregando pelas bordas das pupilas, me agarrando aos cílios e finalmente afundando no caos do breu. Por um bom tempo passei vivendo mais no sonho, porque a realidade me fazia mal, machucando como asfalto a pele nua. Não enxergava mais o mundo, apenas o negro e a perdição de sentimentos, uma convulsão na qual me meti quando caí para dentro dos teu olhos, espécie de ciclone interno. Afoguei e por pouco não morri. Engoli muita água, muita água negra, que rolava dos teus olhos, lá dentro. Eu engolia água, glub glub glub glub, e engoli tanto que não consegui mais falar, tampouco respirar. As mãos não obedeciam mais ao comando, apenas tremiam de terror, e quando tentava lembrar daqui do mundo, antes de cair, era um preto só: nada e nada. Nadei, ainda bem, para um ramo ou algo assim, ali me apegando, algo mais ou menos sólido que pelo menos consegui lembrar que existia.

Daí, dormi.

E o sono me deixou lânguida, lagarta dormente, um casulo eu estava virando total. Enrolada no sono fiquei ainda por lá, lá dentro, lá no breu, mas então havia imagens. Nada podia pegar, tocar. Mas podia sentir, e sentia além das coisas existentes, sentia tu.

Boiei, e o balanço me enjoou, vomitei e enjoei, dormi, quase sumi por nada comer. Dormi muito tempo.

Ainda hoje tenho saudade do breu, sabe?

É, agora que acordei e meio que saí do teu olho (de um só, pois teu olho direito nega saída) e que vejo e toco e sinto, meio capenga, o mundo e as coisas e que como e que dou sorriso, agora que estou meio viva de novo, lembro do abismo e do teu negro dos olhos dentro das pupilas, e como elas se abriram para me engolfar, e como caí, e isso tudo deu uma saudade e uma letargia que parece que tomei uma garrafa de vinho toda e agora tenho sono. Na verdade, eu tomei a garrafa de vinho toda.

E no fundo, o negro dos teus olhos era um espelho: o sentimento que eu via ali era meu.

E tu foi pegar uma cerveja que até hoje não encontrou.